sexta-feira, 10 de abril de 2020

Escorpião

Amor de escorpião é incandescente.
Queima tudo e deixa contente.

A-Mar

Escrevo porque sinto-me só e a solidão não me faz companhia.

Sou o não, calado no escuro; 

Impossibilidade abandonada de si.

Vazio em retirada.

Desconstrução, adornada em escombros.

O escuro da sombra, no piso frio.

Sou só olhos.

Essa que vê,

Descalça.

E que, daqui, só daqui,

Irá a-Mar. 

A-Deus

Vou dizer adeus, antes da tua chegada.
Partirei deste ponto de espera, para que nunca mais me vejas, nunca mais.
Todos os campos hão de esperar por nós, solitários.
Nossos verdes serão estéreis.
As paisagens vão suplicar, curiosas, por nossos encontros.
Nunca existirão em beleza ímpar, pela nossa ausência.
A chuva há de tocar tudo na cidade, menos o nosso beijo.
As salas de cinema hão de aguardar, no escuro, a mais doce censura.
Os cafés não vão ouvir nossas frases, nem nossos risos, nas tardes de domingo.
E, nas estações, os trens vão ficar parados.
No extraordinário, sempre faltará uma letra ou duas.
Condeno o magnifico à dúvida da existência porque dele só teremos uma projeção.
Nunca nossos olhos, ansiosos, se visitarão, novamente.
Só o silêncio será capaz de me trazer pra perto porque minha voz vai estar presa nos versos que te dediquei.
Serão apenas memórias.
O mirante Dona Marta, o Castelo de São Jorge e Sintra existirão sem nossas notícias.
Os sons que imaginamos permanecerão mudos.
E ficará tudo, em sono profundo, no fundo de uma gaveta.
Poeira a mastigar o que fica parado.
Vou saciá-la com papel porque meu corpo ainda vive.

Intervenção

Desde o início foi verbo;
Instalou-se em mim pelos olhos,
Vírus de coisa que cura;
Contágio.
Escorregou devagar, 
Tomando o acesso das ausências,
Confrontando as vias da negação.
Do brilho, converteu-se em voz, e, subterrâneo,
Falou, sem saber, das minhas urgências.
Escalou planícies, sem tombos;
Trovejou.
Manifestou-se, em intervenção,
Anistiando-me do que nem eu sabia.
Inquietando calabouços.
Pedindo, em comando;
Desarmando cordilheiras;
Declarando abolição.
Tudo em mim, hoje, é inconsequência; 
Tudo grita em implosão.
Tudo cala por que a fala vacila;
Treme.
E, desse desmoronamento, abro espaço;
Para as águas de março;
Para reconstrução.

Entre o que Era

Sou,
Onde ser é metáfora,
E todo apego já não precisa ser,
Mas está.
Embates de cabo de força; 
Forças que quase se anulam.
Sou, entre o aqui e a saudade antecipada, por aqui não poder mais. 
Na flexão do verbo:
Entre é e será. 
Sou na dureza do fronte,
Entre a certeza de ficar e as possibilidades da partida.
Entre a árvore e o rio. 
Sou… 
Na fragilidade do asfalto,
Nas antenas, controles; 
Em tudo o que sintoniza, interfere, estabiliza.
No pão repartido, nos farelos sobre a mesa;
No vento que espalha para distâncias.
No exame que testa, vestibulares;
Na insegurança que consola o medo;
No medo que estica o tremor das pernas, diante da letra da música.
Sou, no sopro do sabão, que sobe para encarar a tempestade.
No barulho dos surdos.
E, entre as cifras, sou só um acorde.
- Acorde! - diz quem sou.

Deslocamentos

Ela era trânsito;
Amava viajar, amava amar;
Amava amar viajando.
E, de seus deslocamentos, voltava maior e reposicionada.
Ia de poça a lago,
De lago a rio;
E desaguava; 
A se expandir até evaporar;
Desprendida de suas partes,
Desapegada de detalhes;
Ia, assim, a se transformar em ideia.
Ideia de beleza,
Ideia de vontades,
Ideia de qualquer alma perdida que se achasse;
De alma em movimento.
Para ela, tudo tinha que ser quente,
Ou, então, não era.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Nave




Esse abalo que me desconcentra;
É o apagar de luzes;
Pavor aceso;
Experimento a sensação do laço;
A vertigem da rede.
Queria me desenroscar.
Deitar, no cais, com o rosto pras nuvens;
Manifestar, em versos, a inquietude que perturba as superfícies.
Trago no pulso a potência das touradas;
Nos dedos, uma valsa;
No peito, o anúncio da revoada, pronta pra liberdade.
Esse aviso enche o céu de estrelas;
Rouba a inspiração dos olhos;
Toda a graça das ideias.
Com a visão ainda turva desse éden concentrado,
Sinto a cobiça do encontro entre a Física e o desejo.
A memória quase lúcida dessa condição me esquece.
Sou o peixe no vôo;
O mergulho da ave;
Os ouvidos, na hora da largada;
Pensamento presente,
Cara boba, vivendo no além;

Força abduzida.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Acima

Não quero prosa, nem poesia.

Prefiro a gravidez do verbo;

Parto normal;

A centelha do primeiro sopro.

Na nudez da frase, quero febre;

E um frio, no ponto final.

Corpo presente,

Olhos vidrados,

Alma bailando.

A explosão de um suspiro, no meio da fala;

Costurar meu peito no teu;

E formar constelação.

Se teus ouvidos calarem meu pranto;

Se tua mente materializar meu riso;

Se tua pele sentir esse corte;

Se essa luz te fizer brilhar;

Então, hei de não querer nada mais.

Nem métrica, nem rótulo,

Nem verso, nem rima;

Porque aí, meu bem,

Estaremos bem, bem acima.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Carteiro



Só tive que falar de Pablo,

Seguir o teu chamado.

Sim, a poesia é nossa morada, testemunha;

Somos, juntos, o entusiasmo das sementes, solo afora;

Tudo o que existe para a possibilidade.

Consigo, com a força que me toma,

Quase sentir seu toque.

O efeito que me causas arde, no abafar do grito.

Estado de imobilização.

Tremor que cala, suspenso no ar;

Implorar de poros, que te querem tato;

Toda a fome contida na língua.

No sussurro das rosas,

Presas na minha garganta,

Vou longe pra te abraçar.

Espando-me, perco-me, transporto-me.

Reapareço no vermelho do vinho,

Pra te percorrer,

Afrouxar teu riso,

Banhar tecidos,

Inundar as fibras;

Afagar, sutil, os mais esquecidos atalhos.

E ver erguer a glória desse desassossego;

Fazer o álcool inflamar;

Esgotar a água até que tudo vire poça;

Compartilhar fragilidade;

Para só, então, declamar.

terça-feira, 17 de maio de 2011

24horas

O que há de inteiro;
Intenção,
Insuperável entrega mental.
Os olhos não cessam, não cerram.
Peregrinos das maçãs.
Tens o poder de adivinhar o original;
Saber rumos;
Antecipar pecados.
O dom de me guiar, sem dar comandos;
Trazer clarividência;
De onde aguardo a poesia chegar.
Fertiliza desertos;
Faz surgir água do fogo;
Do frio, sensações atraem.
É teu o mundo que nasce pela fé;
O que expande.
Todos os pontos fora.
É tanto que nem sei;
Que não seja contigo.
Só por hoje.

Tudo o que é demais entope. 



quinta-feira, 31 de março de 2011

Presença

Não há outra saída;

A não ser dar-te tudo o que, em mim, escorre prece;

Os mais certos pedidos;

A mais limpa intenção;

Nasceste em meu mundo, no tempo em que ser mulher era só ensaio.

Agora, das letras que me escrevem,

São tuas as palavras;

Tijolos da torre.

Sobe.

E, devagar, deixa que te tragam;

Até aqui, acima do céu, via láctea, espetáculo;

Porque na escuridão do espaço, eu te vejo.

Dançarei, na areia, sob a lua, em nome disso.

Vou olhar pra cima e declarar que o desejo repousa, no fundo das conchas, eterno.

Habita a distância entre as montanhas;

Mora na sorte das estrelas cadentes.

O quanto te quero está na emoção, atrás das coxias, segundos antes da entrada;

Na pausa para a puxada das cortinas;

No céu, rasgado em fogos, em noite de ano novo.

E estarei contigo em tudo o que de belo teus olhos tocarem;

Na arte natural dos mais felizes encontros;

Porque é no extraordinário que nos revelamos.

Onde o sagrado põe-se a orar.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Metáforas

O tempo, dizem os sábios, só existe na compreensão humana.

Hoje, quero nada de compreensão e tudo de humano.

Quero só este instante;

É o que há, de fato.

Viver, sem fim, as horas,

Em que, solitariamente, estou contigo.

Sentir, paralisada, o umedecer da planta;

Matar tua sede com sereno;

Levar-te à boca o orvalho desse frio que queima.

Quero ver subir brasa da terra,

Em dia de madrugada de sol;

Quando o peito se agitar em erupção,

Quero te soletrar os ciclones dos meus abalos;

Desprender em redemoinhos as mãos;

Pousar, no teu colo, toda essa ventania;

Postergar a chuva e, ligeira, apertar o passo,

E apertar o passo, apertar, apertar;

Até que todo o céu escureça e desabe;

Inaugurar o teu batismo.

Ser seu rito de passagem.

Estrear teu grito.

E sentada, te ver nascer.